Home » Colunas » Entretenimento » De casa »
De casa
Comemoraram? Soltaram fogos? Embebedaram-se? Não, não é pelo time de Conquista. É pelo afastamento de Fidel Castro. Novamente caiu o muro de Berlim! É hora da festa!
Resolvi ler os comentários sobre o afastamento de Fidel. Nada muito interessante. Os comentários mais pitorescos foram feitos pelo próprio Fidel. Ele disse: “Meu dever não é aferrar-me a cargos”. Para um ditador que passou 49 anos no poder, eu diria que ele se aferrou muito ao cargo. A notícia mais interessante que eu li, porém, foi outra. Fidel Castro é brasileiro. Pior: ele é do Pará. É o que dizem alguns pesquisadores paraenses. Como é possível que nosso colunista Diego Ribeiro que veio dessas bandas possa ter ocultado isso da gente? Mas, pensando bem, faz sentido. Eu sempre desconfiei disso. Tudo que é ruim tem um pé no Brasil. Pelo que eu pude entender, o pai de Fidel, Angel Castro, chegou de barco a Tracuateua nos anos 20, e conheceu uma tal de Delfina. Eles tiveram um filho, Fidel Castro, que nasceu nas plácidas margens do Rio Quatipuru, em 1926, onde viveu até quase os 4 anos de idade. Depois disso foi com a família para a cidade de Iquitos, no Peru, onde seu pai tinha outra mulher. Um dramalhão.
Meia-noite. 24 de dezembro. Feliz Natal?
Mais um 25 de dezembro passa e me desilude. Toda a ansiedade contagiante do período natalino se despedaça, de novo, na noite feliz. O riso ecoou, as vozes desfilaram em tons amenos, mas não sei o por quê, ou sei muito bem, lá dentro os sinos pequeninos tocaram apenas uma melancolia vazia. Vazia como barrigas e corações mundo afora.
Meia-noite. 31 de dezembro.
O Brasil olha pro relógio, conta de 10 a 1, assim mesmo de trás pra frente, e pronto! Eis ai a tal vida nova. Nos vestimos de branco como que para escrever coisas novas. Ou para se ter Paz, dizem alguns. Paz para essa insegurança-coração que acelera lá dentro.
Penso comigo que aniversário mesmo fazemos todos juntos. Às 11:59 de trinta e uns de dezembro, todos seguem o ensaio e respiram esperança. É renovação. É folha em branco. Um vazio me preenche. Trezentos e alguns dias passam, escoam. A vida é líquida e o tempo é sedento.
Eu já li A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, umas quatro vezes. É verdade. Melhor reler incansavelmente Clarice do que ler qualquer lançamento de Paulo Coelho. Clarice é crua, direta. E, segundo Schopenhauer e eu, escrever é a arte de cortar palavras. Mas vou ter que assumir em público. Chega a ser vergonhoso, mas é a verdade: eu só fui entender a mensagem de A Hora da Estrela, no último dia 24, véspera de natal.
Todo fim de ano minha mãe e minhas tias fazem feiras para doar aos pobrezinhos da cidade. Por uma insuperável falha de caráter, sempre recusei a acompanhá-las nessas ocasiões. Não é que eu recrimine a bondade alheia. Nada disso. É que deve ser extremamente enfadonho ficar recebendo milhares de abraços e congratulações em agradecimento. Sempre fico encabulado nesses momentos. Este ano, porém, abandonei meus piores temores e lá fui eu para bairros com nomes exóticos como Cachorro Sentado e Nações Unidas. Eu estava certo: os meninos sujos abraçam insistentemente. Eu estava certo mais uma vez: não foi nada divertido, apesar de bastante proveitoso. Pude resolver uma pendenga literária de anos atrás. Entendi, finalmente, porque eu gostava tanto de Clarice Lispector e desprezava Guimarães Rosa.
_ Sorria! É Natal! Hoje todo mundo tem que estar feliz! (Minha tia fez questão de repetir isso durante todo o dia de Natal).
Os presentes arrumados num cantinho improvisado, acompanhados de vinho a família reunida relembra piadas e causos, em meio ao barulho da euforia das crianças rodeando uma mesa comprida e de janta farta. Essa noite foi cenário para muitos sorrisos, sorrisos, poses e abraços para as tradicionais "fotos de Natal".
Em meio ao tumulto divertido, eu reparei: Mesmo o fim do ano chegando, todos querem ser fotografados sorridentes. E o interessante, é que a gente sabe que o ano nem foi tão bom assim, nem tão importante... Porque a gente tá tão contente? Em cada casa diferente a gente ouve sempre as mesmas histórias: O pai perdeu o emprego, a plantação; a mãe se sente velha, cansada; a vó com problema no coração; os filhos estão mais rebeldes e insatisfeitos; e a gente faz prece de outras coisas além de pão, nada foi tão perfeito, a gente andou mais na contramão.
E hoje, vendo em cada sorriso o contrário, novamente eu me perguntava: Isso é a felicidade dos dias passados ou alívio e esperança de uma família de desesperados?
Escrever é uma chatice só. Eu, se pudesse, ficaria o dia todo assistindo os programas mais cansativos da televisão. Só que não posso. Viciei nessa bobagem de ficar emitindo opiniões por aí. Quem ainda não caiu no vício, meu conselho é abandonar rapidamente essa tolice. A única vantagem que eu vejo em escrever para o Revertério, por exemplo, é poder ler os comentários deixados pelos leitores. Acho que isso é sintomático da minha “danada necessidade de aparecer”.
Pude perceber, com lágrimas nos olhos, que os leitores implicam comigo. Enquanto meus colegas recebem demasiados elogios eu fico sendo esculachado. Há os leitores que não se decidem. A minha preferida nesse sentido é Mirna Ledo. Ela lê, religiosamente, os textos que publico. E como uma torcedora fanática de futebol, aconselha, briga, grita, diagnostica. Esses dias ela comentou que estou “dando sinais de insanidade”. Mirna Ledo deve gostar de pessoas insanas, pois ela disse que “gosta da minha forma de escrever”. Eu já tive o prazer de ler um texto de Mirna Ledo. Nele, ela se encontrava em toda sua constrangedora banalidade falando sobre plantas e funcionários da Uesb. Acho que é isso que ela chama de um “um pouquinho de humildade”.