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O Haiti chora…

Por Ígor Luz Ler mais textos de Ígor Luz
29 de janeiro, 2010 | 3 Comentários

12 de Janeiro. 16h53 (19h53 no horário de Brasília). Um terremoto de 7 graus na escala Richter atinge o Haiti, epicentro a 15 quilômetros da capital, Porto Príncipe. Mas os estragos ultrapassaram as fronteiras da nação mais pobre do hemisfério ocidental, hoje com 1,5 milhão de desabrigados, metade de sua população. Desde aquela fatídica terça-feira tenho acompanhado com afinco os noticiários, a fim de saber o destino daquele povo sofrido. Virei um torcedor de poltrona. Aderi a essa corrente de tristeza e indignação. Quando as equipes de resgate encontram um sobrevivente um retrato de sorriso surge em meu rosto.
Todos manuais de auto-ajuda dizem que devemos ser sábios e procurar aprender alguma coisa diante de uma tragédia. Fiz isso. Virei uma Pollyanna, jogando o sempre conformista Jogo do Contente. O que aprendi com o caos que vive o Haiti? Não confio mais em especialistas e meteorologistas. Não aceitarei mais seus diagnósticos. Vários especialistas se reuniram para cuidar do país. Eles sentenciaram que a busca por sobreviventes no país era uma ilusão porque, sem água, as vítimas soterradas após terremotos não sobreviviam três dias. Os meteorologistas têm erros ainda mais abrangentes: eles não conseguem acertar e prever nada de importante.
Lozama Hotteline sorria e cantava quando uma equipe francesa a retiravam do que restou de uma loja. Ela ficou soterrada ao lado de um cadáver. Ena Zizi, de 69 anos, foi resgatada nos escombros de uma igreja. No período em que ficou sob os destroços ela passava o tempo conversando com um vigário. A partir de um momento o vigário não mais atendia aos seus chamados. E ela, sozinha, esperou. Uma grávida foi resgatada. Uma menina de 15 anos foi salva pelo seu tio que, de punho em punho, foi removendo pedras até encontrá-la. Eles suportaram uma semana. Estou na torcida pelas equipes de resgate e pelos voluntários. Eu puniria os tais especialistas deixando-os três dias sem água.

Apesar disso, as esperanças são poucas. Não há Jogo do Contente. Até  Pollyanna, com sua insuportável alegria, ficaria triste e comovida com a situação do Haiti. O número crescente de corpos encontrados já eleva a tragédia como uma das piores da história. Estima-se que, no cômputo final, serão 200 mil mortos ou mais. Além disso, 300 mil pessoas estão feridas. Não há água, comida ou medicamentos. E as consequências do terremoto vão além da destruição de patrimônio em um país com elevados índices de doenças como aids, tuberculose e malária. Para médicos no Haiti, o pior ainda está por vir. As infecções decorrentes da demora em enterrar os mortos e atender os feridos em um país de crianças subnutridas, onde a higiene já era um desafio, pode provocar um dos piores desastres médicos da história.

A mobilização internacional, sem a qual não seria possível nem pensar em uma saída, enfrenta dificuldade na distribuição de alimentos e água a milhares de pessoas espalhadas em acampamentos improvisados, dormindo ao relento, sob uma paisagem de destroços e corpos em decomposição. Organizar filas é uma tarefa quase impossível. Elas são quilométricas e sempre resultam em violência causada pelo instinto de sobrevivência. Depois de horas de sufoco, brigas e tumulto, a maioria das pessoas saem de mãos vazias, desesperadas.

É complicado para o Haiti. Os haitianos sempre tiveram que lidar de perto com a violência, a fome, as doenças, a pobreza. Sempre precisaram de uma mãozinha amiga. Antes do dia 12 de janeiro, os especialistas (os quais não confio mais) estavam otimistas com o país, que chegou a registrar um crescimento econômico, para surpresa geral. Além disso, já existia algumas promessas de investimentos por lá. Aí veio o terremoto. E o Haiti ficou ainda pior do que era. Mais necessitado. Mais pobre. Mais famintos. Mais doentes. Todo mundo que ajuda como pode ganha meu respeito e admiração. A situação por lá não é boa. Tristeza e angústia.

Eu, se tivesse o poder de decidir ou pedir uma coisa para o Brasil nesse ano eleitoral, exigia que todos os partidos revertessem o dinheiro que eles vão usar em propaganda política para a Cruz Vermelha, na tentativa de ajudar o Haiti. Uma fortuna. Pediria para o Governo cortar os gastos com cafezinho e bolachas e enviasse a grana para compra de remédios para os haitianos. Confiram as licitações: é muito dinheiro gasto com cafezinho e bolachas. Estamos ajudando muito, mas precisamos ajudar ainda mais. O mundo todo precisa se mobilizar.

Enquanto vejo vídeos e imagens do desastre no Haiti, minha tia ouve àquela canção Gente Humilde, letra do Vinícius, música do Chico. Ele conta que tem certos dias que ele pensa em sua gente e sente assim todo seu peito se apertar. O Vinícius fala da sua comoção ao ver “as casas simples com cadeiras nas calçadas e na fachada escrito em cima que é um lar”. A canção termina, então, com o desabafo do compositor: “E aí me dá uma tristeza no meu peito feito um despeito de eu não ter como lutar. E eu que não creio peço a Deus por minha gente. É gente humilde. Que vontade de chorar.”

Se fosse hoje o Vinícius não teria vontade de chorar. Ele riria de felicidade ao ver as cadeiras nas calçadas. Sorriria com as fachadas escritas em cima que ali tem um lar. Vontade de chorar ele teria vendo essa multidão de gente abandonada, entregues, desoladamente, à pobreza, ao relento e a falta de esperança. “E aí me dá uma tristeza no meu peito feito um despeito de eu não saber como lutar…” Só me restam meu inútil texto, minha inútil compaixão, minha inútil tristeza, minha inútil indignação…

Você pode ajudar as vítimas do terremoto no Haiti

É simples. A partir do dia 1° de fevereiro, próxima segunda, Conquista passará a fazer parte da operação Bahia SOS Haiti, que visa arrecadar alimentos, arregimentar voluntários e coletar auxílios financeiros em apoio a população haitiana.

As doações poderão ser feitas na sede da Defesa Civil, localizada na Av. Bartolomeu de Gusmão, nº 744, Bairro Jurema, no mesmo prédio onde está situada a Agência de Desenvolvimento, Trabalho e Renda; também na Direc-20, que fica no 6º andar do Shopping Conquista Center, na praça Tancredo Neves, e no Posto da Polícia Rodoviária Federal, na BR-116.

Os interessados em contribuir financeiramente podem depositar o valor na conta corrente 40.000-9 da agência 3429-0 do Banco do Brasil. Com relação aos produtos, podem ser doadas garrafas de água (1,5 ou 5 litros), leite em pó em lata, achocolatado em pó também em lata, farinha pré-cozida e lata de sardinhas. Os alimentos devem ser enlatados por conta da segurança ao serem transportados. A validade de cada mantimento deve ser, no mínimo, junho de 2010. Não serão aceitas doações fora da lista estabelecida, como produtos higiênicos e roupas, para que se mantenha um padrão de kits a serem enviados, com vistas às principais necessidades detectadas no país pelo Ministério da Saúde.

 
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3 comentários »

  • 1
    Sâmia Louise :

    É impossível não aderir à “essa corrente de tristeza e indignação”.

    Bonito texto.

  • 2
    Wilson Júnior :

    Ígor tocou num ponto que merece total atenção. A condição precária de higiene, na qual os haitianos estão vivendo, porde provocar um dos maiores desastres médicos da história.
    Ótimo texto. Bonita atitude!

  • 3

    O Haití chora. O arruda rouba. A comida perde a validade. Preocupante a história do mundo. Preocupante!!

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