Home » De casa

Um estranho chamado Amor

Por Mariana Lacerda. Ler mais textos de Mariana Lacerda.
28 de janeiro, 2010 | 2 Comentários

Mesmo de férias, eu nunca o vi. Me parece que ele é meio avesso a dar as caras. Nunca me esbarrei com ele na rua e nem consigo imaginar quais sejam suas feições, tampouco sua estatura. Você também não, aposto. E não é que ele anda por ai?

O primeiro encontro, no entanto, é bem cedo. Ela o vê pela primeira vez e ele se personifica. Existir já existia, afinal era uma parte dela. Mas, acho que foi ali, na hora do nascimento, que o danado mostrou que veio pra ficar. Não importa no que o individuo se transforme. Traficante, político, padre, jornalista. O materno é, de longe, a presença mais plena desse estranho chamado Amor. O moleque pode te fazer perder noites, feder, ser desbocado e mentiroso. Não adianta. Ele – o Amor – vai continuar o rondando pelo colo carinhoso ou o olhar compreensivo da mãe.

Desde então, ele se revela sutilmente. Seja no abraço acalentador do pai ou na parceria desmedida dos irmãos. A irmã mais velha é de uma chatice sem fim. O irmão mais novo está crescendo e deixando de ser o bebê bonitinho cujo sorriso atrai carinho. Agora é uma peste sempre pronta a te responder. E mesmo assim, você o ama. Não consegue entender de onde vem aquele carinho inacabável. É ele, o estranho.

Você pode até não acreditar no amor. Não é questão de fé. Não é como Deus ou Alá, não tem diversos nomes e só existe para quem crê. O Amor existe e é a maior força imaginável entre nós seres racionais. Causa reações químicas. Segundo a psicologia, é um misto de paixão, intimidade e união. E tem pra todo gosto: fraternal, platônico, carnal, à primeira vista.  É um estranho que anda por aí, perdido no meio da multidão.

Ao pensar nele, logo se faz a associação aos grandes romances. Mas o amor romântico, tal e qual vemos no cinema nos dias de hoje, é bem recente. O modelo de amar desse romantismo é ligado à paixão, à uma força louca capaz de mover montanhas, avessa à razão. Contudo, nas épocas mais remotas da história da humanidade sua concepção era racional e fazia parte da ordem natural das coisas. Eis que de letras e histórias, Romeu e Julieta se descobrem amantes. E esse estranho chamado Amor passa a perturbar a mente de donzelas apaixonadas.

Leia Romeu e Julieta. Conheça as mais diversas histórias do estranho Amor. Mas, nem se anime. O torpedo recebido não é dele. E nem adianta olhar seu celular a cada dez minutos. Caso ele ligue, o aparelho telefônico vai emitir o ruído sonoro característico e, graças à tecnologia, mesmo que você não esteja olhando. Não adianta também consultar as mil formas modernas dele entrar em contato com você, pois, se for isso mesmo que ele quer não tem falta de internet capaz de dificultar. É simples, o estranho desconhecido não o deixará em paz.

O primeiro, é claro, marca. Tem um gostinho de novidade, de eternidade. E é. Deixa suas marcas e se mantém intocável. Com o passar do tempo, porém, é questão de aceitar e até se acostumar com os defeitos, saber ler as entrelinhas do outro e traçar planos juntos. É questão de escolhas, e muitas delas, racionais. O Amor? Vai continuar andando por aí sem se mostrar, mas sempre se revelando. Aos poucos, a gente vai entendendo. Ou não. Pra falar de Amor, nem todas as palavras do dicionário. Pra entender de Amor, nem todos os poetas. A nós, ele sempre será um amável estranho.

 
1 Estrela2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas
Loading ... Loading ...

2 comentários »

  • 1
    Flávia Mota :

    Lindo, Mari. Isso só pode ser coisa de gente que tá meio que “fall in love”, hein????
    te amo. sinto demais sua falta.

  • 2

    Por um momento eu me senti invadindo uma carta. Depois eu me senti invadido por ela.
    Lindo texto, poetisa.

Comente!