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Narração sem história.

Por Mariana Lacerda. Ler mais textos de Mariana Lacerda.
29 de outubro, 2008 | 3 Comentários

Imagens descoloridas para minha retina anunciam o encarte: O século XX. A revista não poupa grandes feitos para o século que passou. É bem verdade.

O telefone passa a levar a voz. Os jornais, agora impressos em off set, já não são espaço. O rádio trouxe o som, a televisão trouxe a imagem. Passamos a ouvir e a ver. Passamos? No século das maiores guerras de todos os tempos, soldados voltavam cegos, voltavam surdos. Narradores sem história.

Dizem que o homem foi à lua. Comentam que a mulher se libertou, cortando saias, queimando sutiãs. E os dois sequer se entendem. A violência contra mulher é a cada segundo.

Violência. Ao fim de 100 anos ela acabou maior do que começou. O medo não vem mais só dos mísseis, dos homens bomba ou das trincheiras. O medo está na rua. Caminha lado a lado, caminha silencioso e armado. Quem carrega no peito uma mancha de sangue, uma marca de tiro, sabe muito bem disso.  A vida é fugaz.

Meu país dançou no futebol. Meu país dançou na política. Por mais de duas décadas não se falava e fingia não se ouvir. Homens dominavam mentes, dominavam o amanhã. Viver era esperar. Esperar pela liberdade, esperar pela próxima morte, esperar por sua vez. A ditadura da espera.

Outros homens eram dominados pela mente. Silenciosamente anunciavam a paz. Grandes homens. Escreviam descobertas, desenhavam avanços, transcreviam o progresso. Avançavam por todos, enquanto todos estiveram estagnados.

Progresso. Durante um século, o mundo caminhou trôpego entre guerras. Mas o progresso chegou. Um ritmo desgovernado de industrialização impôs um ritmo acelerado de gente. Gente virou peça, a vida é descartável. O sistema agora é de capital.  Quando cai a bolsa, gente vira refém. Quando cai um sistema, o muro não separa mais gente. Gente se separa sem ele. Tempo e espaço não caminham mais juntos. O tempo é relativo. O espaço, diminuído.

O século XX passa por mim entre as folhas da revista. Estático, colorido e narrado, parece história pra gente grande. Várias vidas escoam em suas cores, suas palavras. A vida é líquida, o tempo é sedento. E no fim, só o fim, nada mais.

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3 comentários »

  • 1
    Rafaela Vieira :

    ___
    É bem verdade,
    “a vida é líquida, o tempo é sedento”
    e nos devoram…

    Bom texto, linda ;;

  • 2
    Gil :

    O tempo pode ser sedento, mas nunca se engana. Certas vidas, ele vai saborear com prazer, mas somente as que tiverem gosto original.

  • 3
    Laryssa Marinho :

    “Quando cai um sistema, o muro não separa mais gente. Gente se separa sem ele.”

    Bom texto. Parabéns

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