“Os comércios só vendem, e os porteiros só olham. E essas pessoas, elas não fazem nada. Mas essas pessoas, elas não fazem nada! Nada! (Brasília…) Nada! (Brasília…)” (Plebe Rude)
Brasília, 1978. O tédio e a monotonia da cidade deixaram um grupo de adolescentes insatisfeitos. Eles queriam algum entretenimento. A solução encontrada? Reunir-se regularmente para construir o seu próprio lazer: bater papo, namorar, beber, fumar, tocar violão e discutir música. Era a chamada Turma da Colina. Quem um dia apostou que as atividades desses jovens não passariam de pura euforia adolescente, errou. E errou feio. Foi da Turma da Colina que saíram grandes bandas do cenário do rock brasileiro: Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e Plebe Rude.
A Turma ganhou esse nome porque alguns dos meninos moravam em um conjunto de quatro prédios dentro do campus da Universidade de Brasília, que era chamado de Colina. Para parte de seus integrantes – quase todos influenciados pela corrente punk – era comum viajar para o exterior, pois muitos eram filhos de diplomatas. Quando voltavam das
viagens,eles traziam discos de Clash, Sex Pistols, Damned, Stranglers e Ramones. E dessas bandas, tiravam inspiração para compor suas próprias canções.
Foi em uma dessas brincadeiras que nasceu o Aborto Elétrico, um grupo musical formado por Renato Russo, Ico Ouro-Preto, André Pretorius e os irmãos Fê e Flávio Lemos. Completamente anônimos, eles tocavam suas músicas em aberturas de pequenos shows e eventos. Enquanto isso, Dinho Ouro-Preto (irmão de Ico) fazia estágio como baixista na banda Dado e o Reino Animal, ao lado de Dado Villa-Lobos. André Muller (ou André X) e Marcelo Bonfá ficaram juntos por um período, tocando em Os Metralhaz. O maior objetivo desses jovens? Sem dúvidas, alcançar o reconhecimento.
Mas o Aborto Elétrico ainda não havia saído do anonimato quando o grupo rompeu, em 1982. Renato Russo, sob o pseudônimo de O Trovador Solitário, fez uma temporada solo. Foi nesse período que ela compôs algumas canções que vieram a se tornar grandes sucessos mais tarde, como Eduardo e Mônica e Faroeste Caboclo. Posteriormente, com Marcelo Bonfá, formou a Legião Urbana. Algum tempo depois uniram-se a eles Dado Villa-Lobos e Renato Rocha (mais conhecido como Billy ou Negrete). No mesmo ano, nasceu a Capital Inicial, em sua primeira formação composta por Loro Jones (ex-Blitz 64) e os irmãos Fê e Fávio Lemos. Um ano mais tarde, Dinho Ouro-Preto assumiu os vocais. André X, após alguns outros trabalhos, fundou a Plebe Rude com Philippe Seabra. Novos grupos ganharam vida, mas os obstáculos continuaram os mesmos. Pelo menos por um período.
Nesse meio tempo, outros dois jovens da Turma da Colina saíam de Brasília para fazer
cursinho pré-vestibular no Rio de Janeiro. Hebert Viana (que é paraibano, mas passou pela Capital Federal) e Bi Ribeiro acabaram do interior do Rio, dando vida a Os Paralamas do Sucesso, juntamente com Vital (o da moto, ele mesmo!). À primeira importante apresentação, em um festival de música na faculdade em que Bi estudava, Vital faltou. Então indicaram João Barone para substituí-lo. A química entre o trio foi tão grande, que Barone continuou na banda. A partir daí, alguns hits d’Os Paralamas chegaram à rádio Fluminense, e o grupo foi ganhando popularidade. O seu primeiro LP, Cinema Mudo, foi puxado pela animada Vital e Sua Moto - que até hoje é um grande sucesso da banda.
E por falar em sucesso, as bandas nascidas em Brasília não ficaram para trás. Algumas apresentações em outros estados, e principalmente no Circo Voador, no Rio de Janeiro, gradualmente lhe conferiram o reconhecimento do público. A Plebe incendiava seus shows com letras ácidas – como Até Quando Esperar - que levava a platéia ao delírio. Ao mesmo tempo, com Geração Coca-Cola, a Legião parecia dar voz a um sentimento que tomava conta do jovem brasileiro da década de 80. E pra quem não sabe, famosas canções gravadas pela Capital Inicial, como Fátima, Veraneio Vascaína e Música Urbana, foram compostas ainda na época do Aborto – e por isso Fê Lemos divide a autoria com Renato Russo.
O segredo desses jovens foi levar para o palco o inconformismo de uma geração que cresceu no coração da ditadura militar. O incômodo com o seu perímetro social foi traduzido em letras corrosivas, que questionavam o sistema e mostravam preocupação com o futuro. Utopia? Talvez. Mas com certeza é sentida a falta dessa fórmula utópica que produziu gritos como Que país é esse? nas bandas de rock nacional mais jovens, que parecem limitar-se às temáticas de amor não correspondido e rebeldia sem causa. Os protestos cantados pelos jovens da Turma da Colina identificaram os anseios de todo um país. A partir daí, contratos foram fechados, discos foram lançados, e o número de fãs e admiradores só aumentou. E o resto dessa história, todo mundo já conhece.





Bom texto, não conhecia muito bem a historia dessas bandas… Cumpriu o seu papel de informar.
Ah, essas bandas são a sua cara né… rs
parabens!
Muito, muito booom Saminha!
e a gente até já falou sobre issoo!
“ah, se tivéssemos nascido nessa época..”
texto tão informativo, tão bom!
“Mas com certeza é sentida a falta dessa fórmula utópica que produziu gritos como Que país é esse? nas bandas de rock nacional mais jovens, que parecem limitar-se às temáticas de amor não correspondido e rebeldia sem causa. ”
Há milhares de bandas que usam essa “fórmula utópica” hj em dia, A diferença é que a indústria cultural se interessa pelo amor não correspondido.
E foi muito melhor o Vital ter ficado apenas como personagem, já que “Borone” é o rei das baquetas do rock brasileiro.
adoreiiii!!
muitoo bom!!
Qual foi sua fonte para essa matéria!?!!?!?
andre@cerqueira.cc … resposta… obrigado.
Jovens ricos que protestaram. Muito bom!
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