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O funeral

Por Convidado Ler mais textos de Convidado
25 de outubro, 2008 | 3 Comentários

*Por Tito Abreu

Capítulo I

Morre o sempre morto num dia anterior do seu nascimento. Ele que nunca foi, acabara de ser fim. Em volta do caixão estão todos os ausentes, que mesmo em mente não param de chorar, lamentar os abraços não dados, os olhares afastados e o último adeus.

Nesta noite sem luar encontram-se inúmeros elogios, predicados extensos, que iluminam a sala escura, cheia de infiltrações. Formam-se filas para cumprimentos, jamais vistas em vida. Podemos notar diversos rostos tristes e seriamente marcados pela dor da partida. No fim do corredor é ouvida uma voz feminina, um pouco melancólica, que aos poucos se aproxima do corpo, dizendo:

- Deus receberá este ser no céu.

Em uma patética repetição de cabeças, convidados e parentes do falecido confirmam a mensagem apassivadora. Chegam mais pessoas no velório, e como não há lugares disponíveis para muitos, todos vão se apertando e comprimindo seus órgãos para poder concluir a obrigação ética de ser solidário. Apesar da falta de sinceridade, existem aqueles que acham necessário este tipo de situação.

Vão horas ao lixo, mas o movimento permanece. Muitos vêm, saem poucos, levantam uns, caem outros, alguns reclamam e alguns fingem que amam. O defunto tão bem recepcionado ri de alegria, pois fica surpreso com tanta harmonia familiar.

Depois de uma extensão escandalosa de beijos acontece um momento bastante social, é chegada à hora da prece. Todos fecham os olhos e começam a acompanhar o corajoso que inicia a oração.

- Pai nosso… que…

Santificado…

Nome…

Amém!

A hipocrisia no ambiente inviabiliza o fim da reza. O patriarca da família ao perceber o fato inconveniente, sugestiona antecipar o enterro. Já era tarde e ninguém estava disposto continuar naquela cerimônia. A decisão foi majoritária, marcando assim a entrega do cadáver a terra às seis horas, nenhum minuto a mais ou a menos.

Os carros, as pernas, as bicicletas foram saindo do estacionamento. Uma ressaca presente em todos os gestos, o descarrego de consciência era nítido, e a satisfação do ato feito também.

Capítulo II

A noite leva consigo as horas de espera e a aurora que chegara, quase deixa a vida desalenta, pois essa passa despercebida entre os homens ocupados. Tudo é instintivo, os fatos cotidianos se desenrolam de forma mecânica e ausente de emoções.

O sol esquecido clareia totalmente o cadáver que, aparentemente, demonstra estar cansado; é insuportável a espera de quase meia hora de atraso. Estava previsto que o cemitério ficasse lotado, mas como não chegaram mais pessoas, os familiares do falecido pediram aos coveiros que começassem a descer as cordas. Foi quando, de forma inesperada, que o defunto saiu do caixão. Todos ficaram assustados. Alguns correram, mas os que permaneceram, observaram as lamúrias e lágrimas do morto, que insistia em chorar enlouquecidamente, dizendo entre os soluços frases incompreendidas. O homem já desprovido de vida continuava falando, mas seu grito não se sustentava, deixando-o na cova, estendido, largado, apodrecendo e rejeitado pelo mundo. No entanto, ele era um ser fora do censo comum.

* Tito Abreu é estudante do 2° Ano do Ensino Médio do Colégio Paulo VI, em Vitória da Conquista, e deseja fazer curso superior de Jornalismo.

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3 comentários »

  • 1

    “os fatos cotidianos se desenrolam de forma mecânica e ausente de emoções.”

    bem legal :)

  • 2
    Sâmia :

    Grande talento descritivo. Parabéns!

  • 3
    Laryssa Marinho :

    “…concluir a obrigação ética de ser solidário.” Bom texto.
    P.S: essa columa é fantástica.

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