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“A sorrir eu pretendo levar a vida”

Por Priscila de Souza Ler mais textos de Priscila de Souza
17 de outubro, 2008 | Comentar

“Tudo de alegrias e de tristezas conheci,

Coisas do amor e do sofrer, eu já senti,

Nada me transforma a alegria de viver…”

Em outubro de 1908, nascia no Rio de Janeiro um dos maiores compositores da música brasileira. Cartola, como ficaria conhecido por usar um chapéu em forma de coco para proteger seu cabelo do cimento quando trabalhava em uma construção como pedreiro, era um homem simples que ao longo de mais de cinco décadas, construiu um dos legados musicais mais importantes do cancioneiro nacional.

Começou a trabalhar aos 11 anos em uma gráfica, depois começou a trabalhar em um terreiro deixando despachos nas encruzilhadas, foi ai que começou a freqüentar a “Zona do Mangue”, famosa Casa de Prostituição no morro da Mangueira, foi lá que conheceu um dos seus principais influenciadores Carlos Cachaça, seu padrinho de Crisma, um boêmio, jogador e beberrão, com quem compôs sua primeira música. Aos 17 anos ficou muito doente por ter pegado diversas doenças venéreas, então ficou aos cuidados de Deolinda, que acabou se apaixonando por ele e iniciou um romance com o moço, na época ainda casada. Quando seu marido descobriu decidiram assumir o caso e viver juntos.

Em 1928 Cartola fez a junção de grupos de samba que viviam no morro e fundou a Estação Primeira de Mangueira, nome e cores escolhidos por ele. Nos anos 30 seus sambas se popularizaram nas vozes de Francisco Alves, Marcio Reis e Carmem Miranda. Uma década depois entraria em uma fase negativa de sua vida, contraiu meningite e trocou o Morro da Mangueira pela Baixada Fluminense. Depois de curado começou a namorar a cunhada de seu compadre Carlos Cachaça, D.Zica, a musa de algumas canções do sambista.

Muitos gravaram suas músicas, certamente você já deve ter escutado na voz de outros interpretes, que inclusive fizeram muito sucesso “O Sol Nascerá” (uma composição do início dos anos 60) por exemplo, já teve mais de seiscentas regravações até o momento.

Não tem como falar do músico e não contar sua historia, já que suas composições expressam momentos de sua vida, desde “Chega de Demanda”, quando fundou a Escola de Samba da Mangueira até “Nós Dois” e “As rosas não falam” declarando seu amor por Zica, esta última simplesmente de uma construção poética surpreendente e tocante.

Com sua voz anasalada, porém com densidade emocional, particularmente, gosto mais de Cartola cantando suas composições, ele dá um sentido todo especial a seus próprios sambas. Diversas homenagens foram feitas a Cartola, músicas dele cantadas por Alcione, Beth Carvalho, Cazuza, Marisa Monte, Chico Buarque, que inclusive gravou um CD em 1997 (Chico Buarque de Mangueira), feita em companhia dos integrantes da escola de samba da Mangueira, mas nada se compara ao criador cantando sua criação.

Talvez não valorizemos tanto o samba hoje, já que o instituíram como ritmo oficial brasileiro por todo um contexto onde procuravam a originalidade do povo, a conjuntura política da época contribui para que o samba se firmasse. A elite procurava o brasileiro, foi aí então que os sambistas do Rio de Janeiro, capital do Brasil na época, assumiram em forma musical esse “jeito brasileiro”. Pode parecer clichê, mas a nossa cultura tem que ter mais importância, não só lembrada no carnaval como demonstração de brasilidade pela grande mídia, uma verdadeira “conversa pra gringo dormir”.

Pergunte a uma criança se ela conhece João Gilberto, Paulinho da Viola, Nara Leão, certamente ela ficará com os “olhinhos esbugalhados” e um grande ponto de interrogação no ar, mas pergunte se ela sabe a “Dança do Créu”, ela certamente começará a cantarolar de trás pra frente, nas cinco velocidades. Eu sei que muitas dessas músicas é uma realidade muito mais próxima do que MPB, por exemplo. Mas até onde letras promiscuas contribuem em algo? É divertido, escutamos, rimos, mas a questão é, até onde a boa música tem deixado de ser escutada?

Cartola foi um dos grandes sambistas brasileiros, deixou seu legado com mais de quinhentas composições, quem não conhece suas músicas vale a pena escutar. Quem tem vontade de conhecer sua historia, foi lançado um DVD em 2006, “Cartola, música para os olhos”, dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, conta com relatos de amigos e do próprio músico, além de contar a história do samba e seus precurssores.

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