Há vários motivos para eu gostar de Machado de Assis. Desde os 13 anos, seus livros e biografia acompanham minha vida. Ele foi o meu primeiro tutor intelectual, e por isso tratei de ler toda sua obra. Até mesmo as menos concorridas como Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Algumas pessoas acham que minha maior inspiração é Paulo Francis. Outros acham que é Diogo Mainardi. Há ainda os abestalhados que acham que me inspiro jocosamente em Olavo de Carvalho. Balela. Machado chegou antes de todos eles.
As obras machadianas são fantásticas. Capitu foi, por muito tempo, minha personagem feminina preferida. Hoje ela só perde para Madame Bovary, de Flaubert. Dom Casmurro, aliás, exerceu em mim extraordinário fascínio. Assim como Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Não sei dizer, verdadeiramente, qual a melhor obra do melhor escritor brasileiro. Os seus contos são belos, muito belos, belíssimos. Machado tinha consciência de sua superioridade intelectual e passou a olhar o seu país com olhos distantes.
Machado sempre desconfiou do Brasil e dos brasileiros. Era cético e nunca colocou muita fé no futuro do país. É reconfortante pensar como o mestre. A maneira que Machado descreve seus compatriotas em seus livros é impiedosa: “uma gente mesquinha, preguiçosa, boçal, piegas, selvagem”. Não há atmosfera intelectual. As idéias que circulam nesse sentido são mais um pastiche brejeiro do que os europeus enterraram no século anterior. Desconfiou – sempre desconfiou – de todas as transformações que ocorreram em sua época, como, exempli gratia, a abolição da escravatura e a proclamação da República. Para tornar-se célebre, Machado de Assis repudiou a própria origem, dissimulou a sua mulatice e foi escrever sobre o mundo dos brancos. Mandou às favas José de Alencar, o mais constrangedor dos escritores brasileiros, e se apoiou no irlandês Laurence Sterne.
O que eu ainda não aprendi a fazer com Machado foi bater na cara usando flores. O escritor soube insultar o brasileiro com estilo. Basta ver os ufanistas que citaram e citam seu nome sem parar. Do pateta Luís Fernando Veríssimo ao narcisista Caetano Veloso. Do tolo Josué Montello ao mais tolo ainda Fernando Moraes. Do kitsch Chico Buarque ao chatíssimo Glauber Rocha. Esse era um tipo de gente que Machado desprezaria, mas saberia colocar no bolso.
Este é o outro Machado de Assis que eu ainda não aprendi a imitar: politiqueiro, que se especializou nos elogios mentirosos e nos conchavos, acovardado diante de políticos, entranhado fisiologicamente nas instituições do Estado. O mesmo Machado de Assis, que fundou a Academia Brasileira de Letras, valhacouto de criaturas do nível de Paulo Coelho. Toda essa jequice de Machado está explícita numa frase sua: “a primeira condição de quem escreve é não aborrecer”. Se ele fosse realmente entendido, aborreceria muita gente.
Machado foi superior. Em seu centenário de morte eu só tenho o que agradecer por todos que o entenderam. Sem Machado de Assis a literatura brasileira seria de um fracasso colossal. Vou além: sem Machado, não haveria literatura brasileira.





Eu tava gostando muito do texto até a metade do terceiro parágrafo. Iria somente comentar, aqui, uma dica ao amigo Igor: a personagem Grushenka, de Dostoiévski. Mas, a dica fica em segundo plano.
Vale mesmo é dizer que comentários como “chatíssimo Glauber Rocha” já perderam a graça. No início, eram até dignos de serem chamados de “Pérola-mor”. Hoje, nem isso. Se os textos de Igor tinham um quê de interessante, era o nonsense. Mas, a repetição de tais heresias tornaram os textos vazios de qualquer novidade.
ps: desculpa se alguém achou meu comentário pesado, é pq estou achando o novo Ombudsman tímido demais.
rsrs
caetano é narcisita, mas glauber está longe de ser chatíssimo.
o texto é interessante, cheio de opiniões e mostrou o “outro” lado de machado, além do grande escritor. mas o autor causa certo desagrado ao insultar nomes importantes como o digno, muito digno, dignissimo José de Alencar.
Comente!
Enquete
Eventos