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A primavera já se foi…

Por Rafaela Vieira Ler mais textos de Rafaela Vieira
10 de outubro, 2008 | 2 Comentários

Era quase outubro e a primavera terminava de levar embora todo o cinza do inverno. E ela já perdia a esperança de aquecer seu coração.

Num quase suspiro, olhou pra fora, e o céu ainda tilintava azul em meio ao caos da cidade empoeirada. As flores insistiam em se anunciarem rodeadas de asfalto, as árvores plantadas por alguma alma caridosa já falecida, coloriam-se e os desorientados pássaros buscavam por ninhos antigos.

A ventania que atirava seus cabelos contra o rosto cinza e embaçava os olhos miúdos, era a mesma que havia empoeirado a casa interior. Perto dela, ninguém mais notava a nova estação. Nem mesmo com toda a audácia dos seus sentidos era possível enxergar as mudanças como antes. A primavera era pomposa, mas sua chegada ainda era despercebida.

Após suportar o inverno ela deveria estar em uma nova fase. Porém, continuou seguindo outros invernos de desamparo, de medo, de saudade, de dúvida e de dor, ainda faltava força pra encarar o novo caminho que a vida deveria apresentar.

Por muito tempo ela acreditou que novas estações seriam oportunas às mudanças, mas agora sua vida era redemoinho.

Os tempos eram outros, assim como os sonhos. Voltar atrás, quase impossível. Até chegou um dia em que ela ia se encontrando, mas perdeu a direção por um segundo e se decepcionou. Muitas vezes teve que abandonar alguns de seus ninhos e acabou perdida como eles. Quando quis um ninho novo, não abandonou o modelo antigo. Ela também era temerosa a tentar, e arriscar mudanças era perigoso numa vida que nem sempre é generosa.

Agora que ela já estava cansada de desafiar o destino e de se adaptar a cada pessoa, a um relacionamento e um novo lugar, restava agora, o passo mais sombrio de seguir em frente sem fé nenhuma. Não tinha mais um rumo, mas também não havia expectativas a serem decepcionadas. Perfeito seria ser mais um despercebido naquela multidão. Mais uma alma distraída da esperança.

Tudo o que a primavera se propôs a colorir, não conseguiu trazer um sorriso iridescente. Por isso, as estações cansaram de se tornar chances perdidas e se foram. E todos os dias dela agora são invernos.

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2 comentários »

  • 1

    “Mais uma alma distraída da esperança.”

    muito bonito!
    :)

  • 2

    Dizem que a melancolia é a melhor tinta para se pintar as palavras mais emotivas.

    Lindo texto, apesar de um pouco triste.

    Parabéns, Rafa!

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