Movimento Estudantil. Eu queria publicar uma matéria clara, cheia de opiniões legais e informações interessantes. Para isso, seria preciso colher depoimentos de pessoas ligadas ao Movimento. Pensei em alguns nomes. Desisti imediatamente após reler alguns comentários em minha coluna despretensiosa sobre a saída de Fidel. Pensei ainda em recorrer a alguns antigos conhecidos nesse universo de política estudantil. Desisti, sobretudo, porque eles me olham de forma diferente desde minha saída do Centro Acadêmico. Ou desde antes, vai saber. Pensei ainda em freqüentar algumas reuniões ou encontros. Mas fiquei com vergonha, com medo de não ser bem acolhido. Restava ouvir os comentários exasperados no microfone. Sem sucesso. Não conseguia entender nada, a não ser uns ruídos, umas palmas, uma emoção.
Desde o início dos protestos e denúncias, fiquei agoniado querendo publicar alguma coisa. A editora do Revertério escalou Diego Ribeiro para redigir uma matéria que seria eqüidistante. Não fiquei satisfeito com a coluna. A editora ficou contente, o ombudsman ficou contente. Eu, não. Tenho um bom olho para reconhecer o jargão de uma pessoa ligada ao Movimento. Desde os tempos em que cursei os dois primeiros semestres de História, estou ouvindo, aprendendo, discordando. Hoje, não preciso de mais de uma frase, perdida no meio de um artigo, para identificar um infiltrado.
Com o passar dos dias comecei a aborrecer um monte de gente. Um monte de informantes que prometeram me ajudar a entender tudo o que acontece. Tanto de um lado quanto do outro. Não poderei citar ninguém. Esse é o melhor aspecto de tentar descobrir qualquer coisa do modo conspiratório. Fazemos questão de falar em códigos, como se alguém pudesse ouvir as conversas pelos corredores da Universidade.
- Amanhã tem jogo de xadrez.
- Que horas?
- A partir das 7 da manhã.
- Terá peões fraquinhos?
- Os de sempre.
- E os dois cavalos?
Vez por outra os códigos criam mal-entendidos.
- Depende de quem queremos chamar de cavalos.
- Tem o branco da crina mal aparada. Tem o cavalo preto abestalhado.
- O branco da crina mal aparada estará lá, pronto para atacar o rei. Quem é o cavalo preto abestalhado?
- O cavalo dos cavalos, o cavalo-mor, o cavalo supremo.
- Ah, sim. Esse eu não tenho certeza.
As pessoas costumam achar que eu, pobrezinho, não sou a favor de movimentos. Não é verdade. Doei suados 25 centavos. Um colega conspirador do curso de Computação me disse que os protestos deles são melhores e ouvidos. Discordei.
- Amanhã tem festa na selva.
- Toda a bicharada presente?
- Nem toda. As formigas estarão de fora.
- Quem se importa com as formigas? Prefiro as cigarras.
- As formigas preferem outro tipo de festa. Mais civilizadas.
- Bobagem. Festa só presta com baderna. Com aquele barulho chato das cigarras.
- E se colocarem fogo na selva?
- Melhor ainda.
- O leão vai se enfurecer e não vai ouvir ninguém.
- Duvido.
- A maioria dos animais nem sabe o motivo da festa.
- Melhor ainda.
Ás vezes tento estabelecer certos papos no messenger. Tento dar finalidade a todas aquelas horas que perdi lendo Agatha Christie. Fico cada vez mais confuso. Os códigos ficam cada vez mais difíceis.
- A mega-sena está acumulada.
- Quanto?
- 13 milhões.
- Você vai brigar pelo dinheiro?
- Depende. Se ele me ajudar a conseguir casa própria…
A confusão se estende.
- Que tal uma partida de damas on line?
- Qual código é esse?
- Não é código. É damas on line, mesmo.
- Ah, sim. Topo.
Há casos de movimentos que resultaram em pancadaria. Há casos de movimentos que resultaram em assassinatos. Há casos de movimentos que terminaram em célebres vitórias. O movimento da UESB resultou em poesias. Um monte delas. Sou péssimo com poesias. Na minha infância eu era invocado com apenas uma poesia chatinha em que todas as palavras começavam com a letra P. Ficava recitando sem parar, atormentando meus familiares. Embalado pelo meu sentimento mais benevolente escrevi uma poesia para todos. Pensei em recitar num microfone na universidade, mas sou tímido. Dessa forma, lá vai.
Pessoas Podres Passam Por Penalizados
Povos Pobres Passam Por Palhaços
Pítons Permanecem Parados
Patetas Proclamam Porcarias
Paralisam
Param
Panfletos, Pedidos
Porcos Psicóticos Políticos
Parem! Precisam Parar.
Pobres Protestando Pedem Pão
Pedem Paz
Pagam Por Pecados
Pagar Pra Perder?
Presos Por Pensar?
Povos Pobres Pedem Para Parar.
Viciei nesse negócio de códigos. O melhor modo de se preservar é ficar distante. Estou me lixando para cigarras, formigas, mega-sena e xadrez. Como disse Voltaire, é preciso que cada um cultive seu próprio jardim.
…





E adorei xD~
Paguei Pau Para Poesia
Pageui Pau Pra Poesia [2]
acho que desvendei os códigos… kkkkkkkkkkkkk
ri demais viu.
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