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A boca maldita da velha senhora

Por Convidado Ler mais textos de Convidado
09 de agosto, 2008 | 9 Comentários

*Por Téo Júnior

Com a morte da desbocada Dercy Gonçalves, desaparece a rainha do humor escachado e um ícone dos áureos tempos do cinema e do teatro brasileiros.

Na internet, onde a gracinha corre solta, havia inúmeras páginas escrachando – não sem uma ponta de admiração e de inveja – a vitalidade de Dercy Gonçalves. Ela nunca entregou os pontos. Dercy desafiava a própria lei da natureza. Hoje, chegar lúcido aos 70 anos já é um privilégio, o que dirá viver cento e um anos. A longevidade de Dercy virou pitorescas comunidades orkutianas: “Dercy Gonçalves é imortal?”, “Dercy Gonçalves nos enterrará”, “Quem veio primeiro: o ovo, a galinha ou Dercy?”. Houve quem fizesse bolões, para se tentar adivinhar o mês e o ano de sua morte. Mas ela morreu. Sucumbiu a uma insuficiência cardíaca, no último 19 de julho. É provável que ninguém tenha acertado.

Dercy fez da pobreza, da ignorância, do preconceito implacável, da falta de perspectivas na provinciana Santa Maria Madalena, no Rio, de sua conturbada vida sexual e afetiva, seu palco. Ela foi a eterna personagem de si mesma. Transformou seus dramas em escrachos. E sempre foi assim. Em 1977, quando acabava de completar 70 anos, disse: “Não me sinto velha e o segredo para se chegar a essa idade é viver em paz. Nem amo e nem odeio. Nunca amei ninguém!”. É pena que Dercy tenha sido uma mulher incompreendida. Acusada de “imoral”, de “boca porca”, de “mau exemplo”, de “escrota”, poucos se deram conta de que ela é uma das pioneiras do teatro brasileiro. Influenciou gente da categoria de Fernanda Montenegro e de Cacilda Becker. No início de sua carreira, sem dinheiro e excursionando pelo país, era uma vergonha assistir a qualquer coisa que fosse feita por ela, por ser “extrovertida demais”. Em algumas cidades, fora posta para correr, porque as primeiras-damas não aceitaram “aquela indecência”. Muitos anos depois, seus detratores tiveram de engolir o fato de ela ter virado cultura. Não há um brasileiro que não saiba quem foi Dercy Gonçalves. Mas tudo isso para ela era café pequeno. Como na música de Maysa Matarazzo, Dercy nunca se importou com a maldade de quem nada sabe.

Precisando de alguma forma chamar a atenção (“Eu sou uma estrela”), ela percebeu que era uma mulher engraçada. Dercy nunca respeitou texto nenhum. Geralmente, ia representar uma peça sem nem se dar ao trabalho de lê-la. Descobriu que poderia ser uma ótima humorista. Estavam aí as senhas: o palavrão em cena e o improviso. Ela era capaz de arrancar gargalhadas homéricas da platéia, sobretudo porque, em pleno ato, surpreendia os próprios atores. Dercy, de propósito, fazia com que todo mundo se perdesse. Quis aparecer e conseguiu. Outro recurso foi o cuspe. Dercy tinha uma habilidade incrível de lançar saliva a quilômetros. Ruy Castro conta em O Anjo Pornográfico, que Nelson Rodrigues rebatizou sua peça Dorotéia para Vinde Ensaboar Vosso Pecados, meio desconfiado porque seria especialmente para Dercy montar em São Paulo. Ela encheu a peça de cacos, como Nelson temia, e mesmo assim ela conseguia lotar o teatro graças às suas habilidades. Nelson soube, no Rio, que Dercy estava pintando e bordando com sua peça. Ele resolveu conferir. Um dia, sem que ela soubesse, o dramaturgo viajou para vê-la e saiu impressionado. “Com Dercy, não adianta reclamar. É nossa Sarah Bernardeth”, conformou-se ele. Sarah foi a maior diva teatral que a França já conheceu. Acontece que ninguém queria saber de Dorotéia nem de seus pecados. Os espectadores queriam ver Dercy. Na verdade, Dercy foi a extraordinária representação de Dolores Costa, seu nome verdadeiro, registrada em 23 de junho de 1907.

É claro que, de certa forma, ela fosse explorada pela mesma mídia que ela ajudou a criar. Ganhou um programa mundo-cão quando a Globo estava patinando e a emissora não prometia nada. Vem dessa época seu apego a Boni, seu chefe na ocasião. O programa chegou aos 70 pontos de ibope, números que impressionavam até mesmo Flavio Cavalcanti, uma espécie de Ratinho dos anos 60 e 70. Apesar de ser de teatro e de cinema, a comediante transitou muito na televisão. Lá travou contato com muita gente de peso. Dercy dizia que admirava Silvio Santos e considerava Faustão “um filho”. Levar Dercy para um programa era sinônimo de audiência garantida – assim ocorria a exploração midiática. O público imaginava que viria chumbo grosso. Já idosa, mostrava o peito sem nenhuma cerimônia, levantava as pernas, fazia discursos moralizantes e, principalmente, falava muito palavrão. Numa das entrevistas mais engraçadas já feitas por Jô Soares, ainda Jô Onze e Meia (SBT), em 1995, ela meteu o pau sem um pingo de piedade, no prefeito de Madalena, porque ele cismou que não iria apoiar a construção de seu museu. O prefeito não sabia que estava ganhando ali uma inimiga invencível. “Não vou usar uma mídia desse quilate para falar de prefeitinho de merda”. Questionada por Jô se não tinha medo de ser processada, por agredir verbalmente o prefeito, Dercy disparou apoplética: “Eu tenho 88 anos. Quem é que tem moral de vir me prender? (gargalhadas) Alguém tem moral? Venha! Venha que eu dou-lhe uma bundada!”. O público foi ao delírio. Depois de Dercy pedir para que se abrisse uma CPI pra investigar irregularidades na cidade, divulgou-se que o prefeito e o vice foram afastados por improbidade administrativa, em 1996. Dercy só tinha compromisso com sua cabeça e suas idéias.

Sua vida foi cheia de lances cruéis e espetaculares que, caso fosse filmada, viraria fantástico seriado. Em 1994, ela sugeriu à dramaturga Maria Adelaide Amaral para escrever suas memórias. Uma lacuna, pelo menos, estava preenchida. A vida da polêmica Dercy Gonçalves iria ser publicada. A Editora Globo publicou, então, Dercy de Cabo a Rabo. Só que o livro não é narrado pela autora, e sim por Dercy. Um livro que traz a própria falando em primeira pessoa, sem nenhum pudor, não pode jamais ser deixado de lado. O leitor não consegue parar de rir.

Uma das passagens mais surpreendentes da biografia diz respeito aos abortos
provocados pela comediante: oito. Dercy procurou justificar a decisão, alegando que os homens com os quais se relacionou não estivessem a altura de serem pais de um filho dela, além de uma criança ser, na ocasião, “um fardo”. “Eu não podia passar embaixo de uma cueca que eu engravidava, porra!”, contou, com seu palavreado que reescrevo fielmente (não fazê-lo seria um atentado à memória da atriz). Mesmo quando engravidou de um homem distinto, porém casado e católico fervoroso, Ademar Martins, um industrial de café, que a tratava mais como uma filha, quis tomar a mesma decisão. Mudou de idéia. Ademar fora o único que lhe estendera a mão num momento delicado, instalara-a num hotel e ia semanalmente pagar a conta. Por isso, meio que a contra-gosto, mais como um agradecimento, Dercy decidiu ter a criança. Nasceu Dercimar, a única filha da atriz. Assim que o bebê chorou, Dercy, sem opções, perguntou-se: “E agora, o que eu vou fazer com isto?”

O tempo foi passando e Dercy continuava sendo Dercy. Passou incólume pelas décadas, participou de 40 filmes – alguns deles antológicos, como Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte – trabalhou com gente como Grande Otelo e, sobretudo, atuou em centenas de peças do chamado “teatro de revista”, na célebre Praça Tiradentes, reduto de prostituição e de travestis do Rio. Voltando à televisão, atuou em novelas como Que Rei Sou Eu? e Deus nos Acuda, da Globo, em finais da década de 80 e início da de 90. Chegou, em 1999, a ganhar um programa no SBT. Sempre combativa, Dercy continuava falando o que lhe desse na telha e nunca suportou protocolos e cerimônias. “Ela é mestra em fazer um humor absolutamente inesperado. Dercy explora em lances cômicos o que seria naturalmente um drama”, escreveu Sábato Magaldi, um dos mais respeitados críticos do teatro brasileiro, num artigo publicado em 1983 no Jornal da Tarde.

Em 1998, num dos programas de Silvio Santos, Dercy contou que ainda trabalhava, aos 90 anos. “Para não precisar pedir [dinheiro] a você, a Faustão…”. Ela não pediu, mas ganhou. No início desse ano, a centenária Dercy já dava – claro – sinais de limitações físicas, mas sua memória manteve-se intacta. Participou do programa Nada Além da Verdade, um jogo que consiste em fazer ao participante, perguntas aleatórias, onde ele é monitorado por computador que acusa quando a pessoa mente ou não. Basta uma única “mentira” para que ela deixe o programa. E lá estava a atriz, inteira, que respondeu à sabatina sem titubear. “Dercy, aos cem anos, é a mulher mais lúcida do Brasil”, escreveu Ruy Castro, já citado neste texto, numa crônica publicada ano passado pela Folha de S. Paulo. A comediante ganhou nada menos que R$ 100 mil. Perguntada pelo pessoal do Pânico o que ela faria com tanto dinheiro àquela altura da vida, Dercy não se deu por achada: “Não é da sua conta! E vá cuidar da sua vida!”. A atriz ralhou com a autoridade de quem tem uma pequena fortuna depositada na conta bancária.

O grande show de Dolores Costa foi sua própria vida. Episódios trágicos, traições, atribulações, sorte, fama, fracasso, pobreza, desprezo, humilhações cicatrizadas pelo tempo, compuseram sua principal personagem, que se chamou Dercy Gonçalves. Ela, que antes de tudo era uma mulher capaz de rir – e de fazer rir – da própria desgraça. Dercy foi o próprio povo brasileiro. O espetáculo de Dolores durou um século e chegou ao fim. Cai o pano. Palmas para ela.

*Téo Júnior é licenciado em Letras pela UESB, crítico de teatro e professor da Universidade Federal de Sergipe.
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9 comentários »

  • 1
    paula :

    Texto fantástico.

  • 2

    Extraordinário XD

  • 3
    Lay :

    O nível do site se elevando, sempre!!

  • 4
    isa :

    Simplismente, incrível.

  • 5
    Marcelo :

    Um texto impressionante, porque sempre se referem a Dercy como uma mulher banal. E o tezxto está pontuado de muita coisa que não nos atentamos quanto a Dercy.Ninguém vai ocupar seu lugar.
    Parabéns por um texto tão bom e cheio de idéias. escritos sem preconceito.
    Eu tb achava Dercy estupenda.
    Um abraço

  • 6
    Laryssa Marinho :

    Parabéns….ja acompanho o site tem um tempo e realmente o nível tá cada vez mais elevado, os textos estão ótimos… mas ainda sim sinto falta de uma colona propria para cinema…assim como a de Enrique que trata de esporte e como “na panela” se não me engano, que trata de culinaria….o cinema tem muito para ser explorado.

  • 7
    Carlos Henrique Mendes - Aracaju :

    Li o texto do meu amigo Júnior e conclu´pio seguinte: só num site cheiod e idéias e sério como parece ser este, cabveria um texto tão bom. Em outras mídias sensacioanlistas, dercy Gonçalves seria chamada de . A

  • 8
    Carolina Soares Meneses - Aracaju, sergipe :

    Li o texto do meu amigo Júnior e concluí o seguinte: só num site cheio de idéias e sério como parece ser este, caberia um texto tão bom. Em outras mídias sensacioanlistas, dercy Gonçalves seria chamada de mesquinha. Aqui, ela foi chamada de estrela. A pessoa só tem condições de escrever algo tão belo, quando se tem paixão pelo que decide escrever. Esse baiano é fora de série. (E não é puxação se saco)
    Abraços.

  • 9
    Olana :

    Olá, gostei do seu site, muito bom.

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