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Sobre a violência.

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12 de julho, 2008 | 6 Comentários

*Por Marco Reis

Não obstante o testemunho cotidiano, fecundo em desgraças cujo apelo midiático faz ressoar, no íntimo, nosso efêmero e descarado senso de indignação, pouco ou quase nada se escreve a respeito da violência.

Esta coluna é menos uma pretensão de exaurir o tema e mais uma colaboração singela. Breves linhas cujas impressões, bem ou mal recebidas, granjeiam, sobretudo, uma reflexão.

Para tal, propõe-se uma investigação concisa a respeito da violência e outros temas que lhe são, embora não necessariamente, familiares: o poder e a autoridade.

Segundo SARTRE, a violência, não importa de que forma, constitui sempre uma derrota. Uma derrota que, para o existencialista, faz-se mais grave diante da capacidade de o homem definir sua própria trajetória. A violência é uma escolha1.

A fim de concretizar os esclarecimentos seguintes, sirvo-me de lição de ARENDT2, para quem poder, força e autoridade não se confundem.

De início, o poder, mergulhado em um imaginário dotado de certa carga pejorativa, jamais pode traduzir-se em algo individual. O poder é uma habilidade conjunta no agir. O poder só existe enquanto vontade uníssona ou majoritária de um grupo. Distante, assim, resta aquela figura de “coronéis” ou “políticos poderosos”.

A autoridade se traduz na relação, indiscutível, entre alguém cujas atitudes merecem respeito e obediência e um alguém que obedece. A autoridade, muito mais do que um ato tirânico ou arbitrário, deve ser merecida, isto é, reconhecida. Não é despiciendo o fato de que sua principal inimiga é a chacota: a estupidez do arbítrio ou do abuso de autoridade não resistem à consideração crítica de destinatários que não mais reconhecem respeito ou verdade alguma na ordem, senão um ato risível.

A violência, em si, representa muito mais um instrumento, embora seu caráter ontologicamente próximo ao vigor e à força física sejam visíveis3. Um instrumento de canalização ou otimização de um desejo de impor-se, que, no outro pólo, deve trazer a correlata submissão.

Postas essas definições, é curioso reparar como a violência imiscui-se em diversos setores da vida humana e disfarça-se, em raro mimetismo, nas melhores intenções já concebidas.

O programa libertário da revolução Francesa, berço da Ilustração, de ROSSEAU (e seu homem bom) e de VOLTAIRE (só para ficar nesses dois), não logrou debelar o absolutismo sem que muitas cabeças rolassem, inclusive a de ROBESPIERRE, o braço direito do autor do “contrato social”. As idéias de fraternidade, igualdade e liberdade pululavam em meio a sangue e micro-disputas internas.

O idealista MARX clamou pela união dos trabalhadores. Estes deveriam combater um inimigo invisível, nas palavras de POPPER4: o capitalismo recém-promovido pela burguesia no bojo da explosão industrial. Os trabalhadores, de fato, uniram-se e, dentre outras coisas, promoveram e ainda promovem, sob o ingênuo argumento de que o homem é puramente reflexo de seus condicionamentos sócio-econômicos, oposição e conflito: o socialismo jamais logrou vencer as estruturas apocalípticas de um corpo sem alma chamado capitalismo. Como diz um velho amigo: quem me garante que os pós-capitalistas não inventarão a pós mais-valia? Queríamos ou não, a história ainda é feita, também, pelo que há de mais fascinante nos homens: suais idéias, paixões e atitudes, produto de uma miríade de circunstâncias que não apenas a luta de classes5.

O mundo está mesmo repleto de “ismos”, cada qual com a sua plataforma. Custo a compreender como tantos “ismos” podem parecer tão distintos e tão parecidos. Ou alguém consegue delinear sensíveis diferenças programáticas e qualitativas entre esquerda e direita que não o mero indicativo literal de direção?

E a violência segue faceira, adaptável a um sem-número de ideologias para todos os gostos: o populismo tirânico de CHAVEZ, o pseudo-heroísmo bang bang do xerife BUSH ou a famosa, mas não menos complexa, atávica política do jeitinho brasileiro…cordial…festiva…submissa…ignorante…

Sob uma ótica religiosa, das Cruzadas medievais, passando pelos horrores da Santa Inquisição até chegarmos ao moderno homem-bomba, a violência tem sido instrumento de proliferação do temor. Árabes e muçulmanos devem protagonizar cenas tragicômicas pelos aeroportos e alfândegas mundo afora. Barbas, burcas e o corão tornaram-se artefatos perigosos e estereótipos do inimigo oficial do Tio Sam, digo, do inimigo da civilização ocidental. Multiplicam-se as religiões e, por vezes, um jogador ou outro faz um gol em nome de JESUS, como se um Deus parcial pudesse ser igualmente justo.

À violência caem bem não somente as roupas da ideologia e da cruzada divina, mas também a bandeira vistosa cuja esperança infinita remonta ao cruzeiro do sul.

Do cano das metralhadoras automáticas, manejadas por tenras e, ao mesmo tempo, experientes mãos de mais um marginal do noticiário BONNER ao rombo dos cofres públicos em Brasília, em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer distante município, violentamos e somos violentados. Violentados de modo indiferente.

De tudo isto, segue-se que a violência viceja em todo o lugar e, tampouco, o conhecimento científico e o arcabouço educacional disponível foram capazes de atenuar os efeitos desse instrumento bestial. Pelo contrário: decuplicaram sua potencialidade destrutiva.

Toda a experiência macro corresponde ao microcosmo da violência individual. A sua rede capta variáveis comuns ao nosso convívio: o desejo de “vir a ser”, a competição, a submissão desavergonhada, a vista grossa, o ímpeto de dominação, o transbordamento de invejas, preconceitos e ignorância. Queremos a não-violência de GANDHI, mas nem mesmo a designação consegue livrar-se6 do termo. O que fazer? Apontar as causas da violência seria tarefa fácil, se mais fácil não fosse admitir que, em cada uma dessas variáveis do comportamento humano, pulsa e inça um certo prazer.

O prazer de descontar a frustração do dia, o prazer de enxergar na derrocada alheia um sopro de falso conforto íntimo. O prazer imensurável de sentir-se importante pela dominação, pela imposição, mesmo que somente pela força e sem méritos. O prazer de servir-nos de vícios que, porquanto assim o sejam nas atitudes alheias, em nossas bocas transmudam-se em mensageiros de primorosas virtudes. O prazer de tornar-se um cidadão importante. O prazer do elogio mascarado. O prazer de sentir-se temido e o prazer de sentir-se querido. O prazer de um certo significado da vitória….Ahhh…a vitória. Ao vencedor, as glórias ou as batatas? Contra o óbvio não custa se acautelar: para cada vencedor há um derrotado. Num jogo em que vencer é o fim de todos, não poderá haver vencedor.

A autoridade deve constituir obediência refletida e ciente do acerto de um imperativo. O poder só deveria existir como expressão do debate esclarecido e transparente. E o instrumento para uma comunidade solidária a qual, intelectualmente, concebemos, reside, se não na repressão de nossos mais profundos desencontros morais, na tentativa desinteressada de entendimento do que eles realmente significam.

*Marco Reis é bacharel em Direito pela UFRJ. marcoantonio.jpg

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6 comentários »

  • 1
    Marco Reis :

    ERRATA

    TEOR DAS NOTAS

    1.Certamente uma escolha terrível e recorrente, pois, de acordo com SARTRE, o recriar-se a si mesmo constante do ser humano seria uma violência irreprimível.
    2.ARENDT, Hanna. Macht und Gewalt.
    3.Tal caráter se mostra sensível, já que não raro a violência é revelada através de fatores que intensificam seu efeito avassalador: armas de destruição em massa (químicas, nucleares, biológicas ou fruto da tecnologia crescente desde o antigo arcabuz).
    4.Veja-se: POPPER, Karl. A sociedade aberta e seus inimigos, volume 2.
    5.É curioso observar como a própria designação “luta de classes” engendra algum ingrediente conflitivo.
    6.Chama a atenção o fato de queremos simplesmente nos “livrar” de tudo o que se reputa indigno. Como se o fato de jogar o lixo para fora de casa bastasse para fazê-lo desaparecer.

    LINHA 41: Queiramos ao invés de queriamos.
    LINHA 42: suas, e não “suais”.

    Ass: O Autor.

  • 2

    ¬¬…
    *As interações dos pósitróns mostram-se intrinsecas diante das macro acelerações de íons. Ja os fótons mostran-se muito mais agitados e coesos diante de tanta rebelia incognitiva.
    Espero q um dia recursivamente falando, as macro partículas dos quartos de hádrons possam algum dia encontrar seu caminho.
    ¬¬…
    aiwuehiuawhiuehaiwuheiuhawuiehuiawheiuawhiuehawiuehiuwaehuhaw
    E viva a escrita culta e sem graça!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Q se decupliquem os textos cultos, para q eu possa cassoar mais ainda… aiwehiuawheiuhwaiuehawiuehiauwehiawueh

    “If you live you will die, you won’t live forever stuck in time”

    *Isso ñ faz sentido algum.

  • 3
    Marco Reis :

    Eu reluto em decepcionar-lhe, mas não existe literatura inculta.
    A própria confecção de um texto carece de alguma instrução, por pior que ele seja ou por mais inverossímil.

    Cultura, como diria Kierkegaard, é o caminho que o homem percorre a fim de se conhecer.

    Percorremos distintos caminhos. Uns da construção, outros da destruição. Mas veja, caro Pentelho, até para “caÇoar” dos outros é preciso um pouco instrução.

    Eu só posso esperar que a vida seja mais generosa com você do que suas palavras são para comigo ou para qualquer outro integrante deste blog.

    Sem mais.

  • 4

    iauheiuahwiuehiuawheiuhawiuehiuawheiuhawi…
    Boa resposta man… ^^
    Aí, eu posso caçoar ou cassoar, ja q você consegiu entender o q eu disse, de qualquer forma, da próxima vez q você escrever lembre-se eu não sou advogado, ou adÊvogado… ^^
    Como diria Mamis, “uma vez talvez, duas tudo bem, mas trÊs com certeza”… :P
    Eu disse q seu txto ta bom só não gostei do jeito q você escreveu… ^^
    E você me tarjou de do mau total man… “u só posso esperar que a vida seja mais generosa com você do que suas palavras são para comigo ou para qualquer outro integrante deste blog.”
    Quase chorei… T_T
    Eu sou tão bonzinho…

    Sem mais

  • 5
    Marco Reis :

    Seu comentário continua abaixo da crítica.

    Não existem termos jurídicos no texto. Não utilize de um “ad personam” para encobrir suas deficiências.

    Mas eu não pretendo mudar a sua “opinião”, e, tampouco, alimentar discussões absolutamente inúteis, razão pela qual termino aqui minha participação, mesmo que 666 pentelhos retornem a este fórum.

    Faço minhas as palavras de Voltaire: ” Posso não concordar com nenhuma de suas palavras, mas defendo até a morte o direito que tens de dizê-las”

    Um abraço, Sr. pentelho.
    E bom domingo.

  • 6
    Carlos Albuquerque :

    O melhor texto publicado no site essa semana. Não é de espantar que não seja alguém que cursa ainda segundo semestre de jornalismo.

    Bom tema, boas referências, bons comentários.

    Parabéns à equipe. Desejo ao site mais maturidade para compreender e escrever textos mais complexos.

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