“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, por que alta vive.”
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
Janeiro chegou com muita ansiedade para muitos fãs e contempladores da boa música brasileira. O DVD e CD duplo do áudio do show “Dentro do Mar tem Rio”, da artista Maria Bethânia, veio completar o seu passeio único pelas águas doces e salgadas que nos banham. No início de 2007 ela nos presenteou com dois CDs simultâneos, um homenageando os mares, repleto de boas composições, percussão do grande Naná Vasconcelhos e poesias da portuguesa Sophia de Melo Breyner; outro, retratando os lagos, rios e cachoeiras da rainha dourada perpassados por palavras de autoria de Guimarões Rosa, João Cabral, Fernando Pessoa e Antônio Vieira. Garantindo o seu pioneirismo não só em misturar águas, mas também, música e poesia.

A temporada de shows deste seu último trabalho foi finalizada e eis q podemos levar o show para dentro de casa. Bravo. A “cantorona”, como a chama Bibi Ferreira, comemorou dia 13 deste mês, 43 anos de carreira, iniciada em 1965 no teatro Opinião, quando emanou seu grito profético de Carcará, descoberta por Nara Leão. De lá para cá já se somam algo superior a quarenta e cinco trabalhos, dentre gravações em estúdio e ao vivo. E assim Noel Rosa já teve suas relíquias consagradas pela voz de Bethânia, assim como outros grandes: Vinícius de Moraes; Dorival Caymmi; Chico Buarque, com sua obediência inteligente (“Maria Bethânia e Milton Nascimento, agente obedece!”); Caetano Veloso que teve sua primeira música gravada pela irmã (É de manhã); Batatinha; Tom Jobim; Gonzaguinha que lhe ofertou a inesquecível “O que é, o que é”; Suely Costa; Roberto e Erasmo Carlos; Banden Powel; Carlinhos Lyra; Rosinha de Valença; Roberto Mendes; Capinam; Ivone Lara; Wally Salomão; Jorge Portugal; Djavan, Herivelto Martins; Adriana Calcanhoto; Gilberto Gil; Arnaldo Antunes; Chico César; J. Velloso, e muito outros.
Álbuns clássicos como “Rosa dos Ventos, o show encantado”, dirigido pelo mestre Fauzi Arap, fez história e marcou as lembranças de muitos. “Beta” sempre encaixa uma parte desse espetáculo nos seus shows, a pedidos unânimes. Outros trabalhos exemplares, como “A Cena Muda”, “Talismã”, “Maria Bethânia (1988)”, “Álibi”, “Âmbar”, “Ciclo”, “Pássaro de manhã”, “Drama”, “ A beira e o Mar”, “Imitação da Vida” e “Diamante verdadeiro, a força que nunca seca”, são lampejos visíveis de que temos sim, aquilo que a criatividade e sensibilidade humana desejou ter, manifestos de beleza tão perto de nós e á nossas mãos.

Após ter sido afastada da Universal Musik, em 2001, sendo alegadas a ela poucas vendas. Bethânia foi convidada pela gravadora Biscoito Fino para realizar suas produções, e de lá para cá meu caros… Ela não parou de nos e se engrandecer. Desta forma, o CD “Maricotinha”, relembrando a música de Caymmi que a fez para a própria, deu o ar da graça da forma mais arrebatadora possível, com uma vendagem superior a mais de 100 mil cópias, vindo depois o DVD e se emergindo na carreira para o arrependimento de muitos e felicidade de milhares. Sucedeu posteriormente o show “Brasileirinho”, trabalho de respeito da valorização, revitalização e enaltecimento da cultura brasileira em suas mais firmes raízes. Trabalho que conquistou escolas, prestígio e alunos mais acordados para a realidade nacional, como exemplo, o trabalho da professora Vânia Corrêa Pinto, no Colégio Estadual Vicente Jannuzzi , no Rio de Janeiro em 2005.
Ousada, criou um selo próprio, o “Quitanda”, da onde já saíram das mãos produtivas de Maria Bethânia discos em homenagem à violonista baiana Rosinha de Valença, “Namorando a Rosa”, nas vozes de vários cantores; cantigas de samba de roda populares por “Dona Edith do Prato e vozes da Purificação”; homenagem ao sagrado e à Maria de Nazaré em “Cânticos, preces e súplicas a Nossa Senhora dos Jardins do Céu”; o álbum genial de Mart’nália, lançado no ano de 2006, “Menino do rio”, o lançado no ano passado, “Mart’nália em Berlim ao vivo” disponível em CD e DVD e outro esperado para este ano, muito em breve, também pelo selo “Quitanda”, e agora, aguardado para o mês de fevereiro a nova parceria de Bethânia, com a cantora cubana Omara Portuondo, em disco intitulado com o nome da duas, de canções inéditas. Elas, logo após seguirão turnê em onze cidades brasileiras, de março até maio.
Tudo e Todos, remédios eficáceis para quaisquer males. Há alguns anos, através de apaixonados e encantados por Bethânia, vários documentários têm vindo à tona nos aproximando cada vez mais da vida e miudezas dela, como o “Outros (doces) Bárbaros”, que mostra bastidores, ensaios e coletivas de Gal, Gil, Bethânia e Caetano, em 2002 para a realização de um show rememorável, na praia de Copacabana. “Música é Perfume”, dirigido pelo documentarista francês Georges Gachot que depois de um show de Bethânia, fica perplexo e decide filma-la no seu cotidiano criativo. Os outros são “Pedrinha de Aruanda” e “Bethânia bem de perto”, o primeiro, dirigido por Andrucha Washington, o qual a mostra em um show e no seu convívio familiar cheios de lembranças, o segundo, filmagens do início da sua carreira, com apenas 18 anos, resgate surpresa para a própria musa.
“Tempo, tempo, tempo, tempo” marcou os seus quarenta anos de carreira, salpicado de músicas do “poetinha” carioca Vinícius de Moraes, devido ao álbum lançado anterior a esse espetáculo, em 2005, de título “Que falta você me faz”. Mergulhando nessas oferendas de águas, nos banhamos em mares desconhecidos e de leveza única, assim como no sertão mais rude e sincero. Maria Bethânia é a dose certa para os amores vívidos, para os álibis de chegar a conhecer grandes poetas, para os amores em estado latente, lágrimas existentes, para os deuses pagãos nos orixás, para as cantigas populares que nos relembram brincadeiras, casas, avós, infância, para a simplicidade das vidas hostis, para os sonhos existentes, pescadores e marinheiros, elegância e refinamento nas devidas canções.
Através dela adentrei aos recintos triunfantes de Fernando Pessoa e Clarice Lispector, vi a inteligência nova de boas proclamações musicais. Sorrateiramente, fui apresentado a tantos outros gênios das letras, a tantas histórias verídicas e encobertas: “O sobrado de mamãe é debaixo d’água. Tem ouro, tem prata, tem diamante que nos alumeia”. Eu não sou apenas aquele que fui, mas também aquele que se constrói ininterruptamente pela música e pelas brisas boas que ela me traz.
Maria Bethânia é destemida, é descalça sobre o palco e isso me cativa, é energia, é poço de novidade e boas surpresas, é a chama vermelha a iluminar muito, é gestualidade, atitude, conhecimento e aprendizagem, é a transformação de tudo, reinvenção, é a autenticidade, é o amor-próprio, é o amor pelas próprias raízes, e por outras também, é liberdade, é ofício com respeito, é manhã com livros ao som de Nana Caymmi, é interpretação, é cheiro de poesia, é senhora de raios e ventos, é meu âmago, é parte de mim!
Ficam aqui minhas palavras cansativas, minhas declarações, minha vontade voraz de compartilhamento, de multiplicação!
Eis outros amantes de igual amor:
“A Bethânia tem lá uns mistérios. Você faz a música, manda para ela, depois fica esperando, sem saber se ela gostou ou não, gravou ou não. Parece coisa de amigo oculto. Quando volta a música, já toda embrulhada, é outra. É a música da Bethânia. Uma vez ela mudou uma nota da minha música. Estranhei, mas depois achei que ficou melhor. Eu gosto sempre da música da Bethânia. Outra vez eu lhe mandei uma música, “Olhos nos Olhos”, e ela me devolveu duas. A mesma música cantada por duas mulheres bem diferentes. Acho que eu já disse que gosto muito, gosto sempre das músicas da Bethânia. Buarque, que é como só ela me chama.”
Chico Buarque – cantor, compositor e escritor
“Mas Bethânia, abelha rainha, canta basicamente com todo o fluxo de sangue que corre pelas veias de seu corpo, fonte de energia de cor de Iansã. São rios sanguíneos de paixão e ira, romance e revolta, doçura e dureza, nascidos da melhor tradição do Brasil profundo, um Brasil gentil e barroco, cheio de violência e espírito, que ainda não aprendemos a compreender.”
Cacá Diegues – cineasta

“Ela, com o seu jeito quieto, faz coisas grandiosas através do seu trabalho. Bethânia está na minha vida. Anos atrás, foi ela quem me ensinou a cantar no palco. Minha postura, a maneira como entendo o palco, devo a ela. Tudo o que sei emana dela. Somos artistas quentes.”
Gilberto Gil – Ministro da Cultura, cantor e compositor
“Maria Bethânia é um perigo para quem está despreparado emocionalmente, destrói qualquer monstro de terno e gravata que não sabe dizer eu te amo a uma mulher.
Bethânia é uma condutora de palavras, é quem melhor pronuncia o português ao lado de Roberto Carlos. ”
Carlinhos Brown - cantor e compositor
“Maria Bethânia ajuda a construir nosso país com a sua voz tão pessoal e com a verdade e a beleza do seu trabalho. Essas características de sua arte fazem dela, de fato, uma intérprete da alma e da vida brasileira.”
Ferreira Gullar – poeta
“...quando vejo aquela meninazinha toda magrinha, com a manga do vestido cá embaixo, aquele cabelo arriado, cantando Diplomacia, rapaz! (…) Eu fiquei… rapaz! O que é isso? (…) Eu fiquei nas nuvens…!”
(Assim o compositor Batatinha descreve o que sentiu na primeira vez em que viu Maria Bethânia cantar. A música a que se refere, Diplomacia, é um samba do próprio Batatinha).








“Maria Bethânia é a dose certa para os amores vívidos, para os álibis de chegar a conhecer grandes poetas, para os amores em estado latente, lágrimas existentes, para os deuses pagãos nos orixás, para as cantigas populares que nos relembram brincadeiras, casas, avós, infância, para a simplicidade das vidas hostis, para os sonhos existentes, pescadores e marinheiros, elegância e refinamento nas devidas canções.”
sua dose exata de poesia demonstra toda sua paixão por ela, pela música.
encanta fá..
“Garantindo o seu pioneirismo não só em misturar águas, mas também, música e poesia.”
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