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Todo ano é a mesma coisa…

Por Sâmia Louise Ler mais textos de Sâmia Louise
26 de dezembro, 2007 | 10 Comentários

Final de ano é sempre a mesma coisa. A começar pelas milhares de luzinhas que invadem a cidade, e por todo lugar que a gente passa, lá estão elas: piscando. De todas as formas e cores: piscando. Tão bonitinhas: piscando. Começam a encher o saco: piscando. Lá vem a sua dor de cabeça: piscando. Aí você se convence de que o Natal não pára por causa do seu astigmatismo.
E também tem a decoração natalina. De repente parece que tudo à nossa volta fica verde e vermelho. Os comerciais na TV, as vitrines, os outdoors. Inclusive a salada parece ficar mais verde e vermelha. E até mesmo o saldo bancário resolve entrar na festa: sai do verde e entra no vermelho. Também há as imitações fajutas de neve. Pedaços de isopor, de plástico, de algodão… A simulação tem que estar perfeita. Claro, que no país tropical abençoado por Deus, a gente improvisa como pode. Principalmente quando se tem um sol de 30 graus torrando o cucurute.
Também é época de ser solidário. Ver aquela família carente no Gugu que iria passar Natal com fome, dá um nó na garganta. Você chega mesmo a doar um quilo de alimento ou um brinquedo para uma Comissão de Igreja que passa em sua porta pedindo para fazer doação. Se sente até mais leve. Aí chora assistindo os mesmos filmes da crucificação de Cristo que você viu no ano passado. Afinal, Natal é época de se sensibilizar.

Mas eis que a imitação de pinheiro armada na entrada do trabalho lembra que está chegando a festa de confraternização da empresa. Festa de confraternização é sempre a mesma coisa. Parece que é sina aquela secretária mal humorada te tirar todo ano no amigo-secreto. E então você é obrigada a desembrulhar aquela blusa super cafona, parecendo que foi comprada para sua avó. Aí se esforça para dar o sorriso mais natural que conseguir, e… vamos lá… você consegue… “Nossa, adorei!”. Ufa! Mas a bruaca parece não se dar por convencida e toma a blusa de sua mão, estica para ficar bem visível pra todo mundo, e diz que achou a sua cara. A sua cara, esse pedaço de pano velho?! Tudo bem que ultimamente você anda com algumas olheiras, mas ela não podia ter feito isso justo na frente do estagiário bonitão! E quando você pensa que está acabando, ainda tem o presente de Natal da empresa - a forma de agradecer as 8 horas de trabalho ao dia, sem pagar as horas extras: um panetone que cabe na palma da mão. Aliás, parece mais com um brigadeiro um pouco crescido. A diferença é que o brigadeiro não tem gosto de pão mofado.

Passado o trauma da festa da empresa (não sem antes ser obrigada a prometer dez vezes à secretária que vai usar o seu presente na virada de ano, mas já pensando num modelito de pano de chão para fazer com a blusa), chega então a mais famosa de todas as festas de família: a ceia de Natal. Mas ceia de Natal também é sempre a mesma coisa. Sempre tem algum parente que a gente só viu uma vez na vida, ou nem ao menos conhece, e que resolve sair dos quintos dos infernos para cear com a família. “Oi tio, tudo bem? Tia, que bom que a senhora veio! Nossa, tio, parece que o senhor está mais jovem desde a última vez…”. “Esse não, menina, esse é o garçom!”. Então logo começam aqueles pirralhos correndo pelo meio da casa, esbarrando nos arranjos de sua mãe. Aquela tia antipática, que não perde a oportunidade de lhe alfinetar, começa a dizer que já está na hora de você arrumar um noivo, afinal, não quer ficar para titia, né? Faça como a Ritinha, que está de casamento andado com o gerente daquela empresa famosíssima, que parece com um ator de novela e ganha super bem. Aí você se pergunta: o que é que a vaca da sua prima tem que você não tem? Olha de esguelha para a Ritinha: loira, alta, cinturinha de Barbie, bumbum enorme… Quase uma dançarina do Tchan. É melhor não estragar sua noite de Natal com a resposta.
Mas logo depois de algumas doses de vinho, você se vinga de todos eles. Nossa, parece que você não tinha reparado no batom vermelho da Ritinha… Poderia até mesmo confundi-la com um travesti! Hahahaha! Olha, o Zezinho caiu embaraçado no pisca-pica… Hahaha, bem feito! Moleque endiabrado, hahaha! Olha só o tamanho do prato do tio Osvaldo, parece até que veio da guerra! Hahahaha! Nossa, não tinha prestando atenção no quanto sua tia ta gorda… Ta parecendo um colchão amarrado dentro desse vestido… hahaha!
No final das contas você tem que acordar de ressaca ouvindo a maior bronca de sua mãe, dizendo que você foi a maior vergonha da festa, e ainda ajudá-la a arrumar toda a bagunça que ficou na casa, sentindo aquela dor de cabeça.

Mas, passado o trauma da ceia de Natal, vem a festa de réveillon. E festa de réveillon é sempre a mesma coisa – você nunca sabe ao certo como que escreve ou pronuncia, só sabe que tem muito champanhe para estourar. Viagem à praia, com aquela galera. Todo mundo se preparando para a tão esperada virada. E logo começam as superstições. Vermelho, cor da paixão: fita vermelha amarrada na calcinha, para desencalhar. Fita rosa para que seja logo com o seu grande amor. Amarela para que ele seja bem rico e possa lhe bancar. Verde porque se ele não chegar esse ano, você não desistir de esperar por ele no próximo. Quando termina de amarrar todas as fitas, sua roupa íntima já está digna de Globeleza. Por fim a roupa branca para… Bom, você nunca sabe ao certo pra que merda serve vestir roupa branca, mas já que todo mundo veste…
É chegado o grande momento! 5… 4… 3… 2… 1! Feliz ano nooovo! Nossa, aí é uma agonia pra abraçar logo todo mundo, que quando você se dá conta, já abraçou o marido da moça que ia passando, o vendedor de água mineral, o catador de latinha, mas acabou esquecendo o primo gato da Pri. Qual a cor da fita para espantar miopia? Promete que não vai esquecer de pesquisar isso no próximo ano…
E chega a hora de pular as 7 ondas, e fazer os 7 pedidos. Pula a primeira onda: saúde pra toda a… Lá vem a segunda onda: que o estagiário bonitão me chame pra… Terceira onda: um bumbum igual ao da Riti… Quarta onda: que a bruaca não me tire no próximo… Passou a quinta, você não fez o pedido! Corre atrás da quinta! Lá veio a sexta! Puft! A sétima te dá um banho. E você acaba caída na praia, com a roupa encharcada. O mico da noite. E o pior de tudo: já era a sua chapinha.

E todo ano novo também começa com velhas promessas de uma vida nova. Dedicar-se aos estudos, ser mais agradável com as pessoas no trabalho, levar a sério aquela dieta de toda segunda-feira, não jogar mais papel de bombom na rua, não cobiçar o namorado da vizinha… Tudo isso vai para a pauta das “100 coisas que eu devo fazer para me tornar uma pessoa mais feliz”.
E então o ano começa, e começa a rotina, e os problemas, e as contas a pagar… Volta a dor de cabeça, e você se irrita com o trabalho, principalmente com a Alzira, que começou a pegar o estagiário bonitão. Tem que se virar com desculpas esfarrapadas toda vez que a secretária lhe pergunta por que ainda não usou aquela blusa pra ir trabalhar. Tem que engolir o convite de casamento da Ritinha. E você não tem mais tempo pra pensar em dieta, muito menos em estudos. Não tem mais tempo pra porra nenhuma. E a única coisa que lhe resta fazer é esperar pelo próximo ano, pedindo do fundo do coração para que ele seja diferente. Porque os anos que estão por vir, são sempre a mesma coisa. Neles apostamos todas as nossas fichas, todas as esperanças de algo melhor. Então, no final é ir levando as coisas do jeito que puder, e torcer para que no ano que vem a vida seja mais fácil. E o panetone, mais gostoso.

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10 comentários »

  • 1

    o pior é que todo fim de ano é assim mesmo pra muita gente
    a história se repete…

  • 2
    Igor Luz :

    Saindo do estilo metafórico de Adélia Prado para as crônicas humoradas do Jabor.

    Você é muito boa no que faz. Com você daria até gosto ser ombudsman.

  • 3
    Ricardo Horus :

    Seus textos são bons Sâmia Louise. Diferentemente bons do de Ígor Luz, que afirmou que seu estilo é um misto de Adélia Prado (poesia) e Arnaldo Jabor (crônicas). Há uma escritora que consegue unir perfeitamente bem os dois estilos e que acho que você pode seguir seu estilo. É a Lya Luft.

  • 4
    Julia do Monte :

    Calourooooosss!! O site já é um vício adorável… Parabéns pela iniciativa! Fico feliz pela sede de vocês; continuem sempreeeeee!
    Quero elogiar não somente o texto de Sâmia. A cada dia me encanto mais com as publicações deste agradável espaço… Sinto-me em casa!

    Saudações veteranas e orgulhosas!! :)

  • 5

    Eu não sei nem onde eu encontrei esse site, mas, cara, eu adorei o texto.
    É bem verdade esse texto. Adorei ele. Parabéns. :)
    Se você escrever um livro um dia, me avisa. ^^’

  • 6
    wilson :

    Perfeito Samia!!!
    agora me tire unas duvidas: em Brejões tem arvore de natal com pisca-pisca?
    rsrsrsrsrsrsrs…
    no mais, adorei!!!

  • 7

    kkkkkkk… caralho !! amei o dinamismo do texto colega ! meus parabéns !!!
    hehe… na reaL, dps de ler o seu texto, eu só pensei numa coisa.
    para essas pessoas q se identificaram com ele, só digo uma coisa: se mate !!
    vc mostrou a vida mais rotineira e xata q uma pessoa consegue ter.
    isso existe, mas isso é só uma parte das várias outras questões de subjetividade.

    hehe.. bjOO lindAh.

  • 8

    Samy!!
    algumas coisas ai acontecem comigo!
    ah e meu primo, eu não deixo vc abraça não! hauhuhauahua…
    bjú*

  • 9

    Samy!!
    algumas coisas ai acontecem comigo!
    ah e meu primo, eu não deixo vc abraça não!

  • 10
    ronaldo junior :

    Esse texto me lembra outro grande escritor,por que não dizer o maior: ”Carlos Drummond de Andrade”.

    Ai vai :

    Cortar o tempo

    Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
    a que se deu o nome de ano,
    foi um indivíduo genial.

    Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

    Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
    Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

    Acredito que foi isso que você quis dizer…[e quem é que não quer dizer isso?]

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